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Mercado de petróleo após 100 dias da guerra com o Irã e crise no Estreito de Hormuz

Petróleo surpreende após 100 dias da guerra com o Irã, mas risco em Hormuz continua alto

Sexta-feira, 12/06/2026

Cem dias depois do início da guerra com o Irã, os mercados de energia mostram um quadro mais complexo do que muitos analistas esperavam. A crise provocou o pior choque moderno de oferta, interrompeu rotas estratégicas, reduziu fluxos pelo Estreito de Hormuz e elevou fortemente os preços de combustíveis. Ainda assim, o petróleo não disparou para os níveis extremos previstos nos primeiros dias do conflito.

O Brent se estabilizou em torno de US$ 100 por barril, muito abaixo das projeções mais alarmistas de US$ 150 a US$ 200. A resposta dos mercados físicos também ficou menos caótica com o passar das semanas. O prêmio pago por barris de entrega imediata, que chegou a níveis extremos no início de abril, recuou de forma significativa. A volatilidade diminuiu, algumas margens de combustível se ajustaram e o sistema energético global encontrou rotas alternativas para evitar uma crise ainda mais profunda.

Isso não significa que o mercado esteja confortável. O Estreito de Hormuz segue como o principal risco para petróleo, gás natural liquefeito, combustíveis, inflação e cadeias globais de transporte. Mais de 10 milhões de barris por dia de petróleo do Oriente Médio foram retirados das rotas normais de comércio, e parte relevante da estabilidade atual depende de soluções temporárias: oleodutos alternativos, liberações de reservas estratégicas, exportações recordes dos Estados Unidos e queda inesperada da demanda, especialmente na China.

A pergunta central agora é simples: o mercado conseguiu absorver o choque porque se adaptou bem ou porque está consumindo rapidamente seus amortecedores? A resposta deve determinar a próxima fase dos preços do petróleo e o impacto sobre empresas de energia, refinarias, petroquímicas, bancos centrais e consumidores.

O que os mercados acertaram nos primeiros 100 dias

Algumas previsões iniciais se confirmaram. As ações de grandes refinarias americanas, como Marathon Petroleum e Valero Energy, subiram com força porque a guerra afetou gasolina, diesel e combustível de aviação de forma ainda mais intensa do que o petróleo bruto. Quando a oferta de derivados fica apertada, refinarias fora da região afetada podem se beneficiar de margens mais altas.

Empresas petroquímicas dos Estados Unidos, como LyondellBasell e Dow, também ganharam fôlego no início da crise. A interrupção de unidades no Oriente Médio reduziu a pressão competitiva e permitiu que produtores americanos elevassem preços pela primeira vez em anos. Esse alívio, porém, parece mais cíclico do que estrutural, já que a capacidade excedente da China continua limitando uma recuperação mais duradoura do setor.

Produtores de petróleo também se beneficiaram. A alta de cerca de US$ 30 por barril em relação aos níveis anteriores à guerra fortaleceu o fluxo de caixa de empresas de exploração e produção. Companhias como Diamondback Energy ganharam com preços mais elevados, mesmo sem uma resposta imediata de aumento forte na produção de shale.

Empresas de serviços petrolíferos, como Halliburton e SLB, também avançaram, embora menos do que poderiam em um ciclo tradicional de expansão. A razão é clara: produtores ainda não iniciaram uma nova onda ampla de perfuração. O mercado melhorou, mas a incerteza geopolítica e a disciplina de capital continuam limitando decisões de longo prazo.

O que surpreendeu: o petróleo não explodiu como esperado

A maior surpresa foi a contenção relativa dos preços. O fechamento efetivo de Hormuz retirou uma quantidade enorme de petróleo das rotas normais, mas o Brent não chegou aos níveis extremos que alguns analistas temiam. Em vez disso, estabilizou perto de US$ 100 por barril.

Essa estabilidade parcial aconteceu por vários motivos. Primeiro, mais petróleo continuou circulando por Hormuz ou ao redor dele do que muitos previam. Mesmo com riscos elevados, um número limitado de grandes petroleiros continuou atravessando a região. Segundo, grandes produtores do Golfo aceleraram o uso de oleodutos que contornam o estreito.

A Arábia Saudita elevou os fluxos por rotas alternativas até o Mar Vermelho, enquanto os Emirados Árabes Unidos direcionaram parte de suas exportações por Fujairah, fora de Hormuz. Essas rotas não substituem totalmente uma passagem marítima livre, mas ajudaram a evitar uma ruptura total.

Terceiro, os Estados Unidos ampliaram exportações de petróleo e combustíveis para níveis recordes. Além disso, governos liberaram centenas de milhões de barris de reservas emergenciais, aumentando a oferta disponível no curto prazo.

Quarto, o petróleo sancionado da Rússia passou a fluir com mais liberdade para a Índia. Esse deslocamento ajudou a aliviar parte da pressão sobre compradores asiáticos, mesmo em meio ao redesenho das rotas globais de energia.

A queda da demanda mudou o equilíbrio

Outro fator decisivo foi a queda mais rápida do que o esperado na demanda global. Estimativas apontam que a guerra reduziu o consumo mundial de petróleo em abril em cerca de quatro a cinco milhões de barris por dia, equivalente a aproximadamente 4% a 5% da demanda global. A Agência Internacional de Energia agora projeta que a demanda do segundo trimestre caia 2,4 milhões de barris por dia em relação ao ano anterior.

A China foi o maior fator nessa mudança. As importações chinesas de petróleo bruto caíram cerca de quatro milhões de barris por dia em relação ao ano anterior. Refinarias reduziram processamento, e restrições sobre exportações de combustíveis diminuíram o incentivo para transformar mais petróleo em derivados.

O consumo chinês de gasolina e diesel também caiu mais de 10% na comparação anual. Esse recuo deu ao mercado global um alívio inesperado. Em um cenário de oferta apertada, uma demanda chinesa mais fraca reduz a competição por barris e ajuda a conter preços.

Mas esse alívio pode não durar. A China havia acumulado estoques antes da guerra, o que permitiu reduzir importações temporariamente. Se esses estoques forem consumidos e a atividade econômica ou a demanda por combustíveis se recuperar, o país pode voltar ao mercado em um momento de estoques globais mais baixos. Esse retorno poderia reacender a pressão sobre preços.

Gás natural também se adaptou melhor do que o previsto

O mercado de gás natural liquefeito também se mostrou mais resiliente do que muitos esperavam. As exportações de GNL do Catar e dos Emirados caíram cerca de 95% em relação ao ano anterior, um choque significativo para compradores internacionais. Mesmo assim, quase 60% da oferta perdida foi substituída por novos projetos na América do Norte e na África, além de maior produção em outras regiões.

Essa substituição ajudou a manter os preços internacionais do gás abaixo dos picos vistos em 2022. O resultado mostra que o mercado global de GNL está mais flexível do que durante crises anteriores, embora ainda vulnerável a choques prolongados.

Para Europa e Ásia, isso é importante. O GNL se tornou peça central da segurança energética desde a reorganização dos fluxos globais após a guerra na Ucrânia. Um choque em Hormuz poderia ter sido muito mais doloroso se novos projetos não tivessem entrado em operação.

Ainda assim, a adaptação não elimina o risco. Se a crise se prolongar e estoques caírem, compradores podem voltar a competir por cargas disponíveis, especialmente antes de períodos de alta demanda sazonal.

Estoques estão caindo e o amortecedor diminui

O mercado não está perto de ficar sem petróleo, mas o colchão de segurança está encolhendo rapidamente. Estoques comerciais e estratégicos de petróleo dos Estados Unidos caíram em conjunto na semana mais recente. Os estoques em Cushing, Oklahoma, ponto de entrega dos contratos futuros de petróleo dos EUA, aproximam-se de níveis que podem dificultar operações de armazenamento e oleodutos.

Esse detalhe é importante porque preços estáveis podem esconder tensão física. Quando estoques caem demais em hubs relevantes, o mercado pode ficar mais sensível a qualquer interrupção. Mesmo um problema regional pode gerar movimentos mais fortes se houver pouca margem de segurança.

Os principais benchmarks de petróleo ainda negociam com prêmio de cerca de US$ 2 a US$ 3 por barril para entrega imediata em relação a meses futuros. Essa estrutura mostra que a oferta de curto prazo continua apertada, mesmo que o preço principal pareça mais calmo.

Em outras palavras, o mercado não está em pânico, mas também não está normalizado. Ele está operando com uma rede de proteção menor.

Combustíveis seguem mais apertados que o petróleo bruto

A tensão é ainda mais forte no mercado de combustíveis. As margens de refino da gasolina estão em torno de US$ 35 por barril, enquanto as margens do diesel ficam perto de US$ 60. Esses níveis mostram que derivados continuam escassos em relação à demanda.

Gasolina, diesel e combustível de aviação são mais sensíveis a interrupções em refinarias, logística e exportações regionais. Mesmo quando há petróleo bruto disponível, o mercado pode continuar apertado se faltarem refinarias capazes de processá-lo ou se a distribuição de derivados estiver comprometida.

Os estoques de gasolina também passaram por uma sequência histórica de quedas semanais. Isso mantém forte a lucratividade das refinarias no curto prazo, especialmente nos Estados Unidos, onde produtores conseguem atender parte da demanda deixada por interrupções no Oriente Médio.

Mas essa situação pode mudar se Hormuz reabrir. Refinarias do Oriente Médio poderiam recuperar produção, plantas asiáticas poderiam elevar utilização, e as margens de refinarias americanas poderiam recuar. O setor está se beneficiando da dislocação atual, mas parte desse ganho depende da continuidade da crise.

Quem ganha e quem perde no setor de energia

Empresas integradas como Exxon Mobil e Chevron parecem melhor posicionadas para lidar com diferentes cenários. Se Hormuz continuar fechado e os estoques seguirem caindo, suas áreas de produção se beneficiam de preços mais altos. Se o mercado continuar desorganizado, suas refinarias, mesas de trading, operações químicas e redes logísticas também podem capturar oportunidades.

Essa diversificação oferece mais proteção do que uma empresa puramente focada em exploração e produção. Se o petróleo cair com a reabertura de Hormuz, empresas integradas ainda podem se apoiar em refino, químicos e logística.

Refinarias independentes devem continuar apresentando resultados fortes enquanto margens de combustíveis permanecerem elevadas. No entanto, o risco para elas é uma normalização rápida. Caso o estreito reabra e a oferta de derivados do Oriente Médio volte ao mercado, a rentabilidade pode comprimir.

Empresas de serviços petrolíferos precisam de algo diferente: não apenas preços altos, mas planos de investimento plurianuais. Enquanto produtores mantiverem cautela e evitarem uma expansão agressiva de perfuração, o potencial de alta dessas empresas fica limitado.

Já petroquímicas receberam um alívio temporário, mas continuam enfrentando a pressão estrutural do excesso de capacidade chinesa. O choque no Oriente Médio melhora preços no curto prazo, mas não resolve o desequilíbrio global.

O que pode acontecer nos próximos 100 dias

A próxima fase pode ser menos favorável ao mercado. Muitas das soluções mais fáceis já foram usadas. Reservas estratégicas foram liberadas, rotas alternativas foram ampliadas, exportações americanas subiram, e a China reduziu compras. Se Hormuz permanecer fechado por mais 100 dias, o espaço para novas adaptações pode diminuir.

Segundo projeções citadas no relatório, se o estreito continuar fechado, cada mês adicional poderia adicionar cerca de US$ 5 por barril à previsão do terceiro trimestre e US$ 15 à estimativa do quarto trimestre, à medida que estoques caem. Isso mostra como o risco aumenta com o tempo.

A corrida agora é entre reabrir Hormuz e consumir o restante do colchão de estoques. Se a diplomacia avançar e o estreito voltar a operar com segurança, o Brent pode permanecer perto de US$ 100 ou até recuar no fim do ano. Se a crise se prolongar, os preços podem subir novamente, principalmente se a demanda chinesa voltar.

Conclusão

Cem dias depois do início da guerra com o Irã, os mercados de energia acertaram algumas tendências importantes, mas erraram o tamanho da resposta dos preços. Refinarias, produtores e algumas petroquímicas se beneficiaram da crise, enquanto o petróleo subiu de forma relevante. Ainda assim, o Brent não atingiu os níveis extremos temidos no início do conflito porque o mercado encontrou rotas alternativas, liberou estoques, aumentou exportações e viu a demanda cair rapidamente.

A estabilidade atual, porém, não deve ser confundida com segurança. Estoques estão caindo, combustíveis seguem apertados, Hormuz continua como risco central e boa parte dos amortecedores já foi usada. O mercado está mais equilibrado do que se esperava, mas menos protegido do que parece.

Ponto final

O mercado de energia sobreviveu aos primeiros 100 dias da guerra melhor do que muitos previam, mas os próximos 100 dias podem ser mais difíceis. Se Hormuz reabrir, a pressão pode diminuir. Se permanecer fechado, estoques menores, combustíveis apertados e possível retorno da demanda chinesa podem recolocar o petróleo em trajetória de alta.